O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por alterações na comunicação social, no comportamento e na forma como a criança interage com o ambiente.
Diante do aumento no número de diagnósticos e da disseminação de informações imprecisas, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou diretrizes atualizadas para orientar, de forma clara e baseada em evidências científicas, o diagnóstico e o tratamento do autismo.
Essas diretrizes reforçam um ponto central: o cuidado com a criança com TEA deve ser conduzido por profissionais capacitados, com base em avaliação clínica criteriosa e intervenções que realmente tenham eficácia comprovada.
Quem está capacitado para diagnosticar o autismo?
Não existe exame laboratorial ou de imagem capaz de diagnosticar o autismo infantil: o diagnóstico é clínico e deve ser feito por um profissional especializado na avaliação neuropsicológica.
A avaliação neuropsicológica envolve uma série de procedimentos específicos, dentre eles a anamnese clínica, com paciente e familiares, testes psicológicos, escalas de autorrelato e heterorrelato, observação e escuta clínica.
O autismo não tem uma “cara” ou condição física que facilite sua identificação, por isso a importância da avaliação especializada.
Ou seja, o TEA é diagnosticado a partir da observação direta da criança, da análise do seu comportamento em diferentes contextos e de uma entrevista detalhada com os pais ou cuidadores.
Aspectos como linguagem, interação social, brincadeiras, padrões repetitivos de comportamento e resposta a estímulos são cuidadosamente avaliados.
Esse processo exige experiência clínica, conhecimento técnico e sensibilidade para diferenciar o TEA de outras condições do neurodesenvolvimento que podem apresentar sinais semelhantes.
Por isso, a diretriz reforça a importância de que o diagnóstico seja feito por profissionais capacitados, evitando rótulos precipitados ou atrasos que comprometem o início das intervenções.
Escalas e questionários: ferramentas de triagem, não de diagnóstico
O documento da SBNI esclarece que algumas escalas e questionários podem ser utilizados como instrumentos de triagem, ou seja, para identificar crianças que necessitam de uma avaliação mais aprofundada. Entre eles, destacam-se:
M-CHAT (Modified Checklist for Autism in Toddlers)
CAST (Childhood Autism Spectrum Disorders Test), indicado para crianças entre 4 e 11 anos
SCQ (Questionário de Comunicação Social)
No entanto, a diretriz enfatiza que nenhum desses instrumentos estabelece diagnóstico por si só. Eles não substituem a avaliação clínica especializada e não devem ser utilizados de forma isolada para confirmar ou excluir o TEA.
A importância de definir corretamente o nível de gravidade do TEA
Outro ponto central das diretrizes é a correta definição do nível de suporte necessário, também conhecido como nível de gravidade do TEA:
Nível 1: necessidade de pouco suporte
Nível 2: necessidade de suporte substancial
Nível 3: necessidade de suporte muito substancial, com alta dependência
Essa classificação não é apenas descritiva: ela orienta diretamente o planejamento terapêutico, a intensidade das intervenções e a organização da rotina da criança e da família.
Quando o nível de suporte é definido de forma inadequada, há risco tanto de subtratamento quanto de intervenções desnecessárias, que não respeitam as reais necessidades da criança.
Intervenções com eficácia comprovada
A SBNI reforça que o tratamento do TEA deve se basear em intervenções com evidência científica, especialmente aquelas voltadas para o desenvolvimento de habilidades funcionais, comunicação e autonomia.
Entre as abordagens com maior respaldo científico, destacam-se:
Análise do Comportamento Aplicada (ABA)
Fonoaudiologia, especialmente para desenvolvimento da comunicação verbal e não verbal
Terapia Ocupacional, com foco em autonomia, integração sensorial e habilidades da vida diária
Essas intervenções devem ser individualizadas, intensivas quando indicado e ajustadas conforme o nível de suporte da criança.
Alerta sobre terapias sem comprovação científica
A diretriz também faz um alerta importante sobre práticas frequentemente divulgadas como “tratamentos para autismo”, mas que não possuem comprovação científica de eficácia e podem trazer riscos à saúde da criança.
Entre elas estão:
Ozonioterapia
Transplante de microbiota fecal
Suplementação indiscriminada de vitaminas
Dietas restritivas, como dietas sem glúten ou sem caseína, quando não há indicação clínica específica
Essas abordagens não fazem parte das recomendações da SBNI e não substituem terapias baseadas em evidências e mais: o uso dessas práticas pode atrasar intervenções eficazes e gerar falsas expectativas nas famílias.
O papel fundamental da equipe multidisciplinar
O cuidado adequado da criança com TEA exige uma abordagem multidisciplinar, integrada e coordenada, exatamente a abordagem que usamos na Clínica Caxias Prime.
A diretriz reforça que o melhor prognóstico está associado a equipes formadas por profissionais capacitados e com experiência no espectro autista.
Essa equipe pode incluir:
Especialista em neurodesenvolvimento
Psicólogos com formação em ABA
Fonoaudiólogos
Terapeutas ocupacionais
A atuação conjunta permite uma visão global da criança, alinhando diagnóstico, definição do nível de suporte e planejamento terapêutico individualizado.
Diagnóstico correto e tratamento baseado em ciência fazem diferença
As diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil reforçam que diagnosticar corretamente o autismo e iniciar intervenções adequadas, no momento certo, faz toda a diferença no desenvolvimento da criança.
Mais do que um rótulo, o diagnóstico bem conduzido é o ponto de partida para um cuidado ético, responsável e baseado em ciência, sempre respeitando as necessidades individuais de cada criança e o papel central da família nesse processo.




